UM HOMEM E UM SEMINÁRIO: BONHOEFFER E FINKENWALDE
UM MODELO PARA NÓS
Douglas Spurlock
Muitos de nós já ouvimos falar algo sobre o jovem teólogo Dietrich Bonhoeffer, autor daquele livro impressionante, Discipulado, escrito na faze de perseguição intensa dos nazistas.
Naquele livro ele nos faz lembrar que o chamado de Cristo não era para uma vida melhor, mais cultural e civilizada, como era de supor pelo clima cultural do cristianismo na Alemanha deste século. Antes, o chamado de Cristo era um chamado para a morte, um serviço sacrificial: “Quando Cristo chama um homem, Ele o chama para vir e morrer”. O livro revolucionário foi fruto de uma vida comprometida com o chamado de Cristo ao discipulado, a cara graça (como oposto à graça barata) da obediência a Cristo no mundo, e uma reflexão profunda dentro de um seminário completamente diferente dos outros da Alemanha ou do ocidente daquela época.
É nossa intenção descobrir exatamente o que estava acontecendo nesse seminário que providenciou o ambiente para uma reflexão e pensamentos tão profundos que deram origem aos livros Discipulado e Vida em Comunhão (ambos publicados pela Sinodal), que treinou homens capazes de ficar firme contra a moda teológica alemã e contra as pressões políticas e eclesiásticas (Rudolf Bultmann e Gerhard Kittel cedo e com facilidade curvaram suas cabeças à ideologia e pressão nazistas). Os seminaristas foram treinados para “cuidar” da remanescente fiel ao Evangelho do Reino de Deus. Será que este seminário pode servir como modelo para nós, hoje, no Brasil?
UM POUCO SOBRE DIETRICH BONHOEFFER
Primeiramente temos que conhecer um pouco de Dietrich Bonhoeffer e sua época. Ele nasceu na classe alta e intelectual da sociedade alemã, seu pai era professor de psiquiatria na Universidade de Berlim. Sua decisão de estudar teologia foi uma surpresa para esta família que possuía uma cultura “cristã”. Dietrich estudou com os teólogos liberais mais famosos de seu tempo, Karl Heim, Adolf Schlatter, Reinhold Seeberg e Adolf Von Harnack, mas nenhem deles deixou sua marca nele. Ele possuia uma mente original e rejeitou as noções de liberalismo para o encontro com um Deus vivo e uma teologia que não era apenas alguma sociologia da religião. Ele não embarcou sozinho nesta viagem, Karl Barth já havia tomado sua jornada em ser descoberto por este mesmo Deus vivo e causou uma ruptura nas faculdades teológicas. Facilmente Dietrich poderia se deslocar de Berlim para estudar debaixo do mestre Barth, mas não quis ser estampado com a marca de ninguém, quis desenvolver seu próprio pensamento, nadando contra a correnteza.
Bonhoeffer, com trabalho intenso, completou sua tese para o Doutorado em Filosofia, em 1927, com idade de 21 anos. O título Sanctorum Communio mostrou a direção de pensamento dele. A comunhão dos santos é estudada não objetivamente – de fora – mas subjetivamente – de dentro – com um compromisso ativo. Bonhoeffer jamais pode ser acusado de estar apenas intelectualmente engajado com a teologia ou a Igreja. Ele sempre foi altamente prático e comprometido. Com o doutorado foi para a Espanha ser assistente do pastor da comunidade luterana em Barcelona. Lá teve a responsabilidade de pastorear os jovens e adolescentes. Neste pastorado Bonhoeffer começou a praticar seu andar intenso com Deus, que foi a fonte de poder espiritual manifestada contra as pressões políticas/eclesiásticas e o cerne do treinamento no seminário Finkenwalde. Num sermão, durante este período, temos uma idéia do pensamento dele sobre este fato: “Nosso relacionamento com Deus precisa ser praticado, do contrário não encontraremos a nota correta, a palavra certa, a linguagem apropriada quando Ele vier sobre nós desprevenidos. Temos que aprender a linguagem de Deus, aprender com esforço. Precisamos trabalhar nisto, deveríamos também aprender a conversar com Ele; a oração também precisa ser praticada como parte de nosso trabalho. Será um erro grave e fatal alguém confundir religião com demonstração de sentimentos. Religião significa trabalho, e talvez seja a tarefa mais difícil, certamente a mais santa que um homem pode cumprir. É uma pena contentar-se com “não sou religioso por natureza”, quando há um Deus que deseja possuir-nos. É uma desculpa. Certamente alguns acham mais difícil que outros, mas ninguém, e podemos ter certeza disto, conseguiu sem esforço.
E aqui está a razão do porque estar em silêncio na presença de Deus requer trabalho e prática: é necessário coragem diária para expor-se ao que Deus diz é permitir que sejamos julgados por esta palavra, toma energia diária deleitar-se no amor de Deus. mas isto traz-nos à questão: que faremos a fim de penetrar neste silêncio perante Deus? Bem, sobre isso só posso contar-lhe, com toda humildade, um pouca de minha própria experiência. Nenhum de nós vive uma vida tão ética que não possa dispor de tempo, mesmo que seja apenas 10 minutos da manhã ou da tarde para ficar quieto e deixar que o silêncio o envolva, para permanecer na presença da eternidade e deixá-la falar, questionar-lhe sobre nossa condição e examinar profundamente dentro de si. Pode ser feito se tirarmos algumas palavras da Bíblia; mas o melhor é abandonar-se completamente e deixar a alma encontrar seu caminho para a casa do Pai, ao lar, onde encontra descanso. E quem quer que tente isso, trabalhando seriamente dia após dia, será enriquecido com estas horas. É claro, começar é sempre difícil, e quem se propuser verá no início uma experiência diferente de fato, poderá sentir-se vazio. Mas não demorará muito para que a alma comece a ser preenchida e revitalizada, recebendo força, aí começará a conhecer a quietude eternal que permanece no amor de Deus; pressão e ansiedade, pressa e cansaço, barulho são aquietados dentro dela, torna-se silenciosa e perante Deus que é sua ajuda. “Minha alma está silenciosa perante Deus que é meu auxílio” (May Bosanquet, The Life and death of Dietrich Bonhoeffer, 1973, pp. 70-71).
Bonhoeffer voltou da Espanha e lecionava na Universidade de Berlim quando recebeu uma bolsa para estudar por um ano no Union Seminary, em New York, um seminário liberal e academicamente de primeiro grau. Bonhoeffer criticou a falta de seriedade teológica e superficialidade de pensamento no Union, em comparação com as escolas teológicas alemãs, mas gostou do espírito de comunidade dos estudantes. Também envolveu-se com as igrejas “negras” de Nova York e saiu de lá com um profundo senso de solidariedade com os negros dos Estados Unidos.
Voltando a Alemanha foi pastorear estudantes numa escola técnica por um ano. A situação na Alemanha estava piorando. Os nazistas estavam crescendo em poder público e fazendo ameaças contra quem ficasse em seu caminho. Uma teologia ligada à raça pura estava evoluindo e muitas juntas e presbíteros da igreja foram pressionados a ceder lugar para a liderança dos “personagens” desta nova teologia. Bonhoeffer foi rejeitado como pastor da Alemanha e aceitou um convite para pastorear a comunidade Alemã em Londres.
Foi em Londres que Dietrich Bonhoeffer entrou na guerra contra uma teologia nazista. O concílio das igrejas luteranas da Inglaterra lutaram para saber se aceitariam ou não esta nova teologia de “cristianismo alemão”. Foi Dietrich que colocou para eles, calma e claramente, as implicações teológicas e também políticas da nova teologia. Os poderes políticos em Berlim tinham notícias da atividade deste jovem pastor quando a Igreja da Inglaterra rejeitou decisivamente a teologia e a política nazista. Bonhoeffer era um inimigo perigoso.
INIMIGO DO NAZISMO – INÍCIO DA LUTA
Voltando para a Alemanha, em 1934, lutou contra os comitês nas igrejas que estavam tentando impor a nova ideologia. Ele viajou bastante para dar palestras encorajar os fiéis a ficarem firmes. Ajudou uma ala da igreja luterana a dizer um “não” firme e claro às autoridades políticas e eclesiásticas que estavam tirando a igreja de sua pureza do evangelho e forçando a igreja a tomar uma posição politicamente segura, mas teologicamente falsa. A proposta de Bonhoeffer não era fugir da política, mas de se envolver tanto no mundo político de modo a fazer um contra-ataque, realizar uma política melhor do que aquela que os nazistas estavam oferecendo.
Mas os nacionais-socialistas eram fortes demais. Impediram os púlpitos e jornais que eram oferecidos a Dietrich. Quase ganharam o poder político em toda a igreja. só um pequeno remanescente fiel ficou para prosseguir na lista, e a maioria deles queria se render.
É exatamente neste momento de crise, quando o problema se agravou, que uma solução surgiu para dar um pouco de esperança aos fiéis espalhados através da Alemanha em igrejas isoladas.
A SAÍDA: UM CONCÍLIO SECRETO
Estas igrejas foram cortadas dos orçamentos da Igreja Nacional, pois não se curvaram à nova teologia. Os pastores ou saíam para encontrar igrejas com este novo pensamento ou ficavam, mas sem remuneração. As igrejas ligaram-se ao “Bruderrat”, um concílio de irmãos, secreto, que sustentava aos pastores para o ministério fiel do Evangelho. Eles formaram um seminário secreto em Finkenwalde e convidaram Dietrich Bonhoeffer para ser reitor e professor.
EDUCAÇÃO TEOLÓGICA REVOLUCIONÁRIA
Bonhoeffer imediatamente começou um tipo de educação teológica e revolucionária. A situação das igrejas exigia uma formação de pastores diferentes do normal, mas Bonhoeffer foi bem mais além do normal e diferente. É impossível saber-se com certeza se continuaria a fazer a mesma coisa uma vez a situação normalizou-se, mas tudo no caráter e propósito dele nos leva a acreditar que manteria o mesmo esquema hoje, pois os propósitos do seminário foram baseados em princípios básicos, e não somente na crise daquele contexto.
UM SEMINÁRIO COM PROPOSTAS CLARAS
1. Modelo de comunidade
O primeiro propósito foi tornar o seminário um modelo de comunidade, de irmandade, companheirismo dos fiéis, da comunhão santa dos santos. Comunhão íntima e intensa com Deus e com os irmãos seria praticada entre os professores e os estudantes. A restauração da igreja acontecerá somente quando sua liderança tiver aprendido como viver em comunhão com Deus e homens no compromisso comum de discipulado. Mas, antes de ser praticada a comunhão intensa deveria ser ensinada e modelada, mostrada.
a. Serviço mútuo. Serviço mútuo em todas as coisas, grandes e pequenas, foi a norma. Começava com a reforma da casa onde os 40 estudantes se encontravam, e a preparação da comida e a limpeza da casa. Terminava com a maneira pela qual os estudantes e professores conduziam as aulas, um ensino conjunto para descobrir a verdade juntos. O coração desta comunidade foi a formação espiritual do seminarista, pois somente um homem espiritualmente forte teria condições de servir seu irmão a liberar sua igreja durante tempos difíceis.
b. Orações. Podemos imaginar a surpresa dos seminaristas quando acordaram para começar o primeiro dia de aula. Antes do café, e antes das aulas, tinham trinta minutos de oração juntos. Esta oração comum se fazia da seguinte maneira: os estudantes eram divididos em dois grupos e alguns Salmos lidos antífonamente (de forma cantada), depois disto um capítulo do Velho Testamento e um do novo Testamento eram lidos e entoavam um cântico gregoriano. Os trinta minutos terminavam com uma oração do Diretor. O café da manhã era servido e depois algo realmente revolucionário era programado.
Devemos lembrar que os seminaristas eram produtos de uma igreja cultural em uma civilização cristã, uma religião formal com boa dose de medo do “sectarismo” ou entusiasmo.
c. Meditação individual. Eles não estavam prontos para o próximo passo de Bonhoeffer que exigiu intensidade pessoal na procura de Deus e seu povo. Depois do café da manhã os estudantes tinham mais trinta minutos de meditação individual. A reclamação foi geral: “o que fazer durante trinta minutos? Como meditar? Podemos limpar os sapatos enquanto estamos meditando?” Bonhoeffer tinha que ensinar a mecânica da meditação. Explicou que a meditação era a criação de um ambiente onde o coração e a mente podem ouvir a Palavra de Deus. É uma intensa busca de Deus onde todas as outras preocupações podem ser colocadas de lado por um tempo para focalizar os propósitos de Deus; só depois retornar nossas preocupações e viver com elas à luz dos propósitos de Deus.
Para facilitar esta meditação, um trecho de mais ou menos 15 versículos era dado no começo da semana, e cada estudante e professor passava os trinta minutos com o mesmo trecho. Era usado para a semana toda a fim de focalizar e aprofundar os pensamentos de cada pessoa e de toda a comunidade. Foi um grande estímulo à comunhão e à unidade.
d. Confissão, uns com os outros. Mais uma ferramenta foi providenciada para a formação espiritual da comunidade no seminário em Finkenwalde. Qualquer encontro com a Palavra de Deus, levado à sério através da meditação, necessariamente leva a comunidade ao quebrantamento. Pessoas e comunidades quebrantados têm que confessar o impacto deste encontro com Deus vivo e Bonhoeffer liderou a comunidade com confissão pública e particular. Isto não era um “show” de sentimentos religiosos, nem uma auto-psicanálise, mas sim um ato de obediência às Escrituras em confessar os pecados uns aos outros para serem curados. Cada pessoa selecionava uma outra pessoa para confessar e abrir sua própria alma. Este relacionamento, baseado em obediência e fé, foi a base de uma amizade profunda e fortalecedora para todos. Exigia muita seriedade e maturidade. Treinou a todos não somente para serem bons pastores, mas para serem honestos, francos e sem pretenções perante Deus e os homens.
2. Servir a verdade
O segundo propósito do seminário em Finkelwalde era servir só a Verdade nos estudos, pregações e ensinos. Parece elementar à sua primeira vista, mas como o primeiro propósito carregava muita carga e implicações revolucionárias. Servir só a Verdade significava uma ruptura completa com a teologia racionalista dos nazistas e sua orientação ideológico-política. Significava uma quebra também com a estrutura desta igreja e suas instituições, tradições e corpos governamentais. Punha fim a qualquer aspiração de obter influência política dentro da igreja, seria viver como um alienado, um sofredor pela justiça e verdade.
a. Modo de ensino. Também mudou o modo de ensino, um mestre não poderia mais entregar a verdade em um “pacote” a ser recebido pelos estudantes. A verdade era o destino e as aulas uma viagem mútua em busca daquele destino. O professor seria o guia que ainda não havia chegado, mas que possuía um pouco mais de experiência.
b. Didática: debates e reflexão. Haviam palestras sim, mas só para providenciar o pano de fundo e mostrar vários caminhos ao destino. Havia muito mais discussão e debate a partir de Três perguntas a serem tratados: 1) Quem é Cristo e seu significado neste assunto? 2) Qual é a natureza da Igreja e quais são as implicações disto para o povo de Deus? 3) o que é discipulado, ou o que isto significará na minha obediência é chamado de seguir a Cristo? Como você pode imaginar, dificilmente as aulas terminavam.
O FIM DO SEMINÁRIO
Como todas as coisas boas esta experiência tinha que acabar. Alguns na liderança do “Bruderrt” não estavam conformados com esta nova maneira de se fazer seminário. Era tão diferente e ameaçava as tradições santificadas da igreja. mas a ameaça real foi da Gestapo, a política secreta dos nazistas. Depois de dois anos de funcionamento a Gestapo finalmente focalizou o seminário secreto e o fechou. Os estudantes foram espalhados através da Alemanha ministrando clandestinamente para os fiéis. Bonhoeffer visitou os EUA mais uma vez em 1939, mas voltou no último barco a sair daquele país para a Alemanha antes que a guerra começasse. Recusou viver tranqüilamente quando seus irmãos e sua igreja estavam sofrendo. Logo entrou no ministério clandestino e também formou um grupo de resistência a Hitler. Duas vezes participou das tentativas de assassinar Hitler, dois fracassos (esta é uma outra grande história: como Bonhoeffer um pacifista assumiu o pecado de tentar assassinar alguém, mas espero contar esta história e o conteúdo da teologia dele uma outra vez). Foi preso pela Gestapo e enforcado dois dias antes da libertação de seu campo de concentração.
O que podemos aprender dele e colocar em prática na nossa preparação de pastores?
CONCLUSÃO E DESAFIOS
Os dois princípios parecem-me ser de valor, não importando época e cultura: a) Comunidade e serviço, b) a verdade, custe o que custar.
Podemos fazer muito mais para a formação espiritual dos seminaristas. Será que nossos administradores e professores têm perdido a visão e estão agora só mantendo a tradição? Será possível que as coisas possam mudar se os estudantes tomarem a iniciativa de buscar comunhão e comunidade seriamente? Os seminaristas precisam de modelos. Onde estão os reitores e professores modelos? E na falta de modelos, os seminaristas ainda têm o chamado de obediência a Cristo? É fácil arranjar desculpas e liderar graça barata há em abundância, mas quem quer influenciar e liderar na graça verdadeira sentirá e agirá com coragem, e começará com um ou dois colegas agora. Quem sabe uma revolução pode acontecer?
Extraído do Boletim Teológico da SETE, Vol. III, n. 6 (outubro de 1987).
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